Capítulo 11 e 12 *NOVO*

Capítulo 11


Por motivos óbvios, acabamos demorando um pouco além da conta pra sair do quarto e isso despertou a fúria de Akemi, a organizadora do grande evento da noite:
- Onde é que já se viu o A-N-I-V-E-R-S-A-R-I-A-N-TEEE chegar no P-R-Ó-R-I-O A-N-I-V-E-R-S-Á-R-I-OOOO com quase DUAS HORAS DEEE A-T-R-A-S-OOOO?! Que papelão, Sr. Zachary Walker Hanson!
Ela foi repetindo o resmungo por todo o trajeto desde a base da escada até o quintal onde todo mundo tava festejando o aniversário do Zac... SEM ELE!
- Anda, criatura! Vai cumprimentar seus convidados! – ela o empurrou pro meio duma multidão de colegas da escola que o receberam com gritos de boas-vindas, depois se dirigiu a mim, me segurando com tanta força e me arrastando pelo quintal com tanta firmeza que achei que ela estava me levando pra um canto onde iria me matar de porrada.
- Aonde estamos indo? – perguntei um tanto preocupada já - Akemi? Você está me machucando... – tentei soltar meu braço discretamente.
- Ah, desculpa! – ela parou subtamente me soltando – Nossa, Mel, desculpa, não percebi...
- Tudo bem... eu acho... – examinei meu braço que estava um pouco vermelho, depois a olhei indagadoramente mas sem fazer uma pergunta propriamente dita.
- Me contaaaa!!! O que vocês tanto faziam naquele quarto até agora?
Percebi que todo aquele nervosismo e estresse nada mais era do que curiosidade contida e que agora ela estava prestes a relaxar, já que, teoricamente, eu revelaria os detalhes do que havia feito dentro do quarto e sua curiosidade seria eliminada da face da terra.
- Ah, nada demais...
- “NADA DEMAIS” ? TÁ ME ZUANDO? CLARO que teve “ALGO DEMAIS”!
Ela foi TÃO discreta ao proferir essas palavras, que numa fração de segundo Suzy e Britt praticamente brotaram do chão e se colocaram uma de cada lado dela, ambas com expressões de vampiros sedentos por sangue, só que nesse caso estavam sedentas por “detalhes picantes”.
- Nossa, quanta discrição! – falei com sarcasmo, lançando um olhar rápido para Suzy e Britt, ainda tentando entender de onde elas havia surgido.
- Desculpa, não deu pra evitar... – Akemi baixou o tom de voz a um tom que só nós quatro conseguíamos ouvir – Mas heim, conta! O que vocês fizeram lááá?
- Que pergunta é essa? Não vou falar o que fizemos lááá! – as olhei incrédula com a falta de tato daquelas criaturas.
- Então é por que teve alguma coisa, afinal! – Britt concluiu, estufando o peito orgulhosa de si.
- É claro que teve! Olha a cara dela! – Suzy acusou.
- O que tem minha cara? – automaticamente passei as mãos pelo meu rosto e procurei uma superfície refletora pra poder me ver.
- AHA! Viu só? Se não tivesse “nada demais”, você não temeria ter alguma coisa diferente no seu rosto. – Akemi se gabou de sua vitória.
“Bingo!” parei de me apalpar diante do reflexo da porta de vidro na varanda do chalé e me virei pra elas, derrotada:
- OK! Rolou sim! – joguei os ombros desanimada – Várias coisas, na verdade! – sorri radiantemente, elas sorrindo também como se fossem reflexos meus.
- O quê?!! – Suzy perguntou, os olhos verdes de gata brilhando.
- Ai, caramba! VÁRIAS COISAS!! Não ta bom? – respondi impaciente.
- Não, não tá! Anda, conta TUDO! – Akemi falou, nos indicando uns puff e banquinhos ali mesmo na varanda, onde nos sentamos numa rodinha fechada.
Percebi que poderíamos passar horas, talvez até dias, nessa guerra - elas implorando pra saber os detalhes e eu me esquivando – e que no fim das contas isso só iria cançar minha beleza e me fazer perder o aniversário do meu namorado, então resolvi dar a elas o que elas queriam – elas só não sabiam que não era verdade.
- Ok, já que vocês insistem... Mas olha, depois não reclamem que eu não as poupei dos detalhes, heim? – elas resmungaram coisas do tipo “Não vamos, prometemos” e eu prossegui: - A gente mal entrou no quarto e começou a tirar a roupa um do outro... foi muito louco e rápido! E intenso!...
Enquanto eu contava uma mentirinha beneficente sobre quantas vezes nós transamos, em quais lugares e em quais posições, as três me acompanhavam mudas, quase em estase, como se estivessem gravando mentalmente palavra por palavra do que eu falava.
- ...E foi isso. Por isso atrasamos... – sorri vitoriosa vendo a satisfação nos três rostinhos que me encaravam.
- Wow! – Suzy soltou, jogando o corpo pra trás, se abanando – Será que vou ter essa sorte um dia?...
A olhei curiosa, não sabia que ela estava de olho em alguém, embora desconfiasse desde aquela primeira festa na casa do Phill.
- Tá de olho em quem, Su? – perguntei, 99% certa de qual seria a resposta.
Ela corou bastante e desviou o olhar para um grupo de pessoas não muito longe da gente.
- Elloy?! – perguntei incrédula.
- Elliot!! – as três responderam em coro.
- Oh. Eu ainda confundo os dois... Mas então, é sério isso aí ou o que é?
- Ah... – ela vacilou ainda o olhando de longe.
- Ainda não é SÉRIO porque nenhum dos dois sai da moita, sabe? – Akemi responde com seu jeito pratico e sutil como um elefante numa loja de cristais.
- Akemi... – Britt chamou a atenção da amiga com seu jeito meigo.
- O que é? – Akemi se dirigiu a Britt impaciente, depois se voltou para mim, lançando olhares rápidos para Suzy que continuava viajando sem sair do lugar admirando seu amado ao longe: - É verdade! Os dois tem esse... lance aí, desde sabe-se-lá-quando, ta super na cara que eles se gostam tipo desde SEMPRE, mas ninguém toma a iniciativa, sabe?
- Sei... – olhei pra Suzy que voltou a olhar pra gente rapidamente, provavelmente ao perceber que Elliot a vira olhando pra ele.
- Ai, Akemi, você não entende, né? – Suzy falou, se colocando de pé num salto.
- O que tem pra entender, cara? Até onde eu sei os dois estão livres e desimpedidos e visivelmente se gostam...
- Mas...
- Mas o que Su? Se ele não chega, porque você não chega nele? - perguntei super entusiasmada com a idéia de bancar o cupido – porque apesar dela não ter me pedido eu já me sentia numa “missão cupido” -, me colocando de pé diante dela.
- TÁ DOIDA?! – ela quase gritou – Eu não vou fazer isso! Não posso!
- Como não pode? Por que não? – simplesmente não entendia o que ela queria dizer com “não posso”.
- Ah, porque... – nem ela soube dizer o “porque”.
- “Porque... ?” – insisti.
- Porqueee... – enquanto ela elaborava um bom “porquê”, Britt e Akemi se colocaram de pé rapidamente também e começaram a falar alguma coisa sem importância num volume quase inaudível.
Continuei a encarando de braços cruzados aguardando uma boa justificativa para não revelar a Elliot que gostava dele. Britt e Akemi se inquietaram aguardando a resposta também.
-...Porque não posso simplesmente chegar na cara dele e falar: “Elliot, eu te amo! Desde sempre! Vamos...”
- Você O QUÊ? – ouvimos uma voz externa a nosso grupo exclamar e nos sobressaímos. Era uma voz masculina e familiar...
- Elliot... ? – a voz de Suzy quase não saiu, seus olhos me encararam super arregalados e começando a marejar.
- O que você disse? – ele perguntou, entregando um copo de alguma coisa para Britt tão desajeitadamente que quase deu um banho na menina, segurando um dos braços de Suzy com a mão recém desocupada.
- Nada... – ela se esquivou da mão dele, ainda de frente pra mim e de costas pra ele, os olhos ainda muito arregalados me olhando como se pedissem ajuda, passando as mãos no cabelo e rosto nervosamente - Eu...
- Ela disse que te ama, pronto! – Akemi soltou impaciente e alivada, revirando os olhos. – E aí, o que tem a dizer?
Aquele jeito um tanto tempestuoso e impulsivo de Akemi que a tornavam tão única e espcial as vezes me assustava e me deixava sem graça, mesmo quando quem deveria ficar sem graça era outra pessoa, como nesse caso.
- AKEMI! – eu, Britt, Suzy E Elliot gritamos em coro. Foi engraçado vê-lo chamar a atenção da Akemi junto com a gente naquela hora, mas o momento era tenso demais para rir.
- Ah, colé, pessoal! Todo mundo sabe disso... – ela gesticulava com os braços abertos e revirava os olhos.
- Britt, ela bebeu? – perguntei
- Mais fácil pergunta quando ela NÃO bebeu hoje... – Britt respondeu dando de ombros.
- Ok, então acho que é hora de ingerir um pouco de açúcar, né? – falei puxando Akemi pelo braço – Brit, me ajuda a pegar alguma coisa?
Britt concordou e nós já nos afastávamos quando senti um puxão no braço:
- Vocês não podem sair assim! – Suzy quase suplicava com akeles olhos azuis enormes e chorosos.
Lancei um olhar dela para Elliot que nos olhava um tanto perdido com as sobrancelhas tão altas que quase sumiam da testa e entravam pra dentro do cabelo.
- Elliot, meu amigo... Agora é com você! – dei uns tapinhas no ombro dele e uma piscadinha. – Vocês têm muito pra conversar agora! – pisquei pra Suzy também que continuou tão pasma quanto ele me olhando.
Não esperamos pra ver aonde eles iriam ou o que fariam.


~*~*~

Britt e eu demos um jeito de fazer Akemi comer e depois a deitamos num dos quartos lá de cima, mesmo contra a vontade dela que insistia em dizer que tinha que ir ver se estava tudo sob controle. Depois de lutarmos contra a fera, voltamos pra festa.
- Aonde será que eles estão agora heim? – Britt perguntou, assim que chegamos ao primeiro andar e não vimos eles nos lugar onde os havíamos deixado.
- Não sei... Mas acho que estão se acertando por aí! – a olhei de lado e dei uma piscadinha. – E você, não vai se ajeitar com ninguém hoje? Se precisar de ajuda...
- Não, muito obrigada! – ela riu – Até consigo me ajeitar sozinha com essas coisas... – ela olhou em volta como uma ave de rapina a procura de sua presa.
Saímos para o quintal, onde nos juntamos ao resto do pessoal, que agora se aglomerava em volta de alguma coisa...
- Oh! Não são os irmãos do Zac? – perguntei meio em dúvida se estava enxergando direito ou não no meio de tanta cabeça.
- São sim! Eles vieram tocar... O Zac não te falou? – Britt se dirigiu a mesa de comes e bebes e eu a segui.
- O Zac não me falou nada da festa até a gente chegar aqui, praticamente, acredita? – até chegar perto dos tacos eu não havia percebido que estava morrendo de fome – afinal, não havia comido desde o café da manhã.
- Ele bem gosta dessas coisas de fazer surpresa, né, pelo visto... – ela comentou num tom todo romântico.
Quando me virei para olhá-la, meus olhos foram atraídos para outro lugar:
- É... ele gosta de fazer surpresas! – comentei, novamente duvidando do que meus olhos viam.
- O que foi? – Britt perguntou – O que ta olhando?
Antes que eu respondesse, ela prosseguiu:
- Ah!... Zac e Ashley...
- Como assim “Zac e Ashley” ? – nunca tinha escutado minha voz tão gélida e cortante como naquele instante.
- Ah, você sabe... Zac e Ashley... ex-“casalzinho perfeito” da escola... Você sabe!... Não sabe?
Percebi ela engolir em seco ao perceber que estava dando com a língua nos dentes, o que ela só deve ter percebido que estava fazendo quando deve ter notado minha cabeça prestes a explodir a medida que meus olhos e boca se abriam automaticamente.
- Não... não sabia. – falei secamente, desviando os olhos dela e voltando a olhar o “ex-‘casalzinho perfeito’ da escola”, que pareciam estar de divertindo horrores no bate-papo deles.
- Ai, Mel! Eu pensei...
Antes que ela terminasse de falar o que tinha pensado eu me vi do lado do meu namorado como um cão de guarda.
- Oi! – falei, sem me preocupar se os estava interrompendo ou não.
- Oi?... – a tal Ashley me olhou com um desdém que se eu fosse ela não teria demonstrado.
- Mel! – Zac me abraçou pela cintura e me deu um beijinho na bochecha – Ash, essa é a Mel de quem te falei...
“’ASH’?! Sério?!” enquanto ouvia essa palavrinha mínima de três letras, consegui visualizar perfeitamente um soco pocante muito bem dado por mim arrebentando a cara super maquiada dela emoldurada por cabelos perfeitamente lisos e demasiadamente loiros.
- Ah, sim, essa é a Mel... – ela começou a falar com uma voz forte e feminina que eu tenho certeza que bambeava as pernas de qualquer homem – talvez até do meu – porque eu mesma senti minha pernas fraquejarem por um instante.
“’ESSA É A MEL’?! Como assim ’ESSA é a Mel’?” Eu juro que estava tentando de tudo controlar qualquer tipo de pensamento ciumento que estava brotando dentro de mim, mas quando se tratava de controlar o ciúme, eu era muito fraca!
- Mel?... Tudo bem? – ouvi a voz do Zac me chamar meio de longe.
- Oi? – me virei pra ele, voltando a realidade. Confesso que fiquei um tanto decepcionada ao ver que o rosto de boneca ainda estava inteiro diante de mim com seus olhos azuis e bem maquiados me encarando, me analisando.
- Oi! Voltou? – Zac me perguntou, depois se virou pra ela – Ela voltou!
Eles riram e eu não gostei de ser o motivo da piada, mas ri junto tentando parecer natural e relaxada.
- Ai, gente, desculpa! Acho que bebi um pouco de estômago vazio... – fiz um gesto vago com uma das mãos, como se dissesse “Que burra eu sou!” e ri o mais naturalmente possível, embora tenha certeza que meu esforço foi em vão.
- Você está bem? Não quer se deitar um pouco? – “ASH” demonstrou uma preocupação duvidosa pela minha pessoa.
- Não! Tô bem, sério! Só preciso comer um pouco... – forcei um sorriso natural pra ela – Me acompanha, meu bem? – me virei pra ele, lhe dando um selinho, meio que... marcando meu território.
- Claro! – ele respondeu prontamente, retribuindo o selinho, depois se virou pra “chearleader de porcelana” – Ash, foi um prazer enorme te re-ver...
“É mesmo?” lancei um olhar rápido para a garota “Aposto como foi!...” observei assim que constatei que ela era bonita demais, qualquer cego poderia ver isso.
- Você está ótima! – o ouvi dizer e tive outro momento “fora do meu corpo” quando ouvi isso.
Acho que eles trocaram mais algumas palavras (elogios e flertes, provavelmente) mas eu estava desligada nessa hora, tinha me forçado a me desligar, justamente porque não queria demonstrar o quão fraca eu estava me sentindo, o quão ameaçada e insegura ela me fazia eu me sentir.

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Capítulo 12

- O que foi aquilo agora a pouco? – Zac perguntou assim que chegamos a mesa de petiscos, após fazermos o curto trajeto em silêncio e um pouco afastados um do outro, eu andando na frente.
- Aquilo o quê? – perguntei desligadamente, fingindo não estar entendendo o que ele dizia, enquanto servia torradas com patê pra gente.
- O jeito como você tratou a Ash! O que foi aquilo, Mel? – ele tinha um sorriso no rosto, mas o tom de voz era contraditoriamente nervoso, embora não estivesse exaltado.
Embora minha cabeça girasse cada vez que o ouvia se referir a ela por esse apelido carinhoso, me limitei a perguntar “Que jeito?” o encarando tentando entender a pergunta que mais parecia uma acusação.
- GROSSEIRO! – ele aumentou ligeiramente o tom de voz, sem gritar, mas alto o suficiente pra me sobressaltar, quase me fazendo derrubar o prato que segurava.
Eu não sabia se estava mais chocada com a acusação indireta que ele acabara de fazer ou se era com a mudança brusca no tom de voz dele: em momento algum ele gritou ou esbravejou, mas sua voz era de uma firmeza quase gélida.
- Eu não fui grossa! Só estava... – comecei a minha defesa com um certo atraso pois estava me recuperando do choque. Eu meio que dei de ombros – ou tentei dar - fingindo não me afetar com a “escolha” que Zac acabara de fazer: ele estava visivelmente defendendo a EX e não a mim!
- “...Bêbada de estômago vazio”? – ele completou minha fala, caçoando de mim com uma imitação piorada da minha voz. Achei isso um tanto debochado e grosseiro da parte dele, o que me irritou um pouco mais e só aumentou meu choque.
  - Aham, sei! – ele continuou, revirando os olhos e prosseguiu - Ah, colé! Eu te conheço bem o bastante pra saber que você não está tão bêbada assim! Você deu foi uma crise de ciúmes desnecessária, isso sim!...
 “’CRISE DE CIÚMES DESNECESSÁRIA’?! Ele só pode estar brincando!” quase gritei, mas disfarcei minha indignação com uma gargalhada, acompanhada da mentirinha mais lavada do mundo:
- EEEUUU COM CIÚMES DE VOCÊS?! É... Pelo visto você não me conhece tão bem quanto ACHA!
- A não?! – ele debochou com uma vozinha irritante.
- NÃO! – menti na cara dura. – Eu não tenho ciúmes de você. Por mim você pode ficar super a vontade pra bater altos papos com sua amiga Ash – não consegui evitar o tom de nojo ao pronunciar o apelido da garota - especialmente se ela for sua “ex” sobre a qual você NUNCA havia comentado comigo! – dei o sorriso mais arreganhado e falso que consegui dar, lhe entreguei o prato de petiscos de qualquer jeito, ignorando o fato de que boa parte caiu nele e no chão, e sai dali o mais rápido que pude, antes que começasse a chorar de ódio na frente de todo mundo.
Acho que o ouvi me chamar... e talvez ele até tenha tentado segurar meu braço, uma ou duas vezes, mas eu queria tão desesperadamente sair dali que o ignorei completamente, sem sequer me dar ao trabalho de olhar pra trás pra ver se ele estava me chamando mesmo ou se era outra pessoa ou se era só imaginação minha.
Eu estava me sentindo péssima com tudo: a descoberta – através de outros, preciso ressaltar - de uma ex-namorada “gostosona”, a omissão deste “detalhe” por parte dele, nossa briga por causa disso tudo...O fim de semana que havia começado tão bem e prometia melhorar ainda mais estava se mostrando um dos meus piores pesadelos. Tive vontade de ir correndo pra casa como uma criança corre pra debaixo da cama pra se esconder da tia que morde bochechas.
Como ir pra casa estava fora de cogitação – eu sequer sabia exatamente onde estávamos, tampouco sabia dirigir ou tinha meu próprio carro – só me restou andar o mais rápido que pude rumo a lugar algum onde eu pudesse soltar todo o choro idiota que estava prestes a explodir dentro mim.
Só que meu caminho foi interrompido por um solavanco no meu braço, me fazendo perceber que eu estava tão cega que estava esbarrando nas pessoas que cruzavam meu caminho, sendo que minha intenção era justamente passar despercebida.
- EI! – ouvi alguém falar, mas não vi quem era, só me desculpei e já ia continuar andando quando essa pessoa me segurou e me puxou - Mel? Ta tudo bem com você?
Quando levantei a cabeça, depois de enxugar as lágrimas rápida e desajeitadamente, reconheci o rosto de um Taylor preocupado me encarando.
- Tô... quer dizer, ta, ta tudo bem, sim... – tentei soltar meu braço da mão dele, mas ele não cedeu.
- Tem certeza? Você não parece bem...
- Tô bem sim, ok? Só preciso... de ar, sair daqui...
Só quando falei isso que me toquei que na verdade eu sequer sabia exatamente em que parte da casa eu estava, dei uma olhada em volta e vi que estávamos no meio do corredor que dava pro banheiro social no andar debaixo, um lugar que realmente parecia abafado e apertado demais para duas pessoas ficarem.
- Ok, vamos lá pra fora então... – Taylor falou gentilmente, ainda parecendo preocupado de verdade.
- Eah... prefiro ficar sozinha agora... – falei, um pouco mais calma e controlada.
- Ok... – ele respondeu me soltando.
Virei e sai andando com passos normais, embora mantivesse a cabeça baixa, na esperança de passar despercebida pelos presentes.
Quando cheguei na parte lateral da casa, que estava vazia, consegui ouvir passos atrás de mim e me virei bruscamente.
- Qual a parte do “prefiro ficar sozinha agora” você não entendeu? – esbravejei assim que vi Taylor parar com o peito a quase um palmo de distância de mim.
- Ei, calma aí! – ele ergueu as mãos como se estivesse sendo assaltados e deu uns passos pra trás - Só estou preocupado com você, ok?
Soltei um suspiro longo e abaixei a cabeça.
- Desculpa a grosseria... Não estou numa das minhas melhores noites, ao que parece... – dei mais alguns passos na direção que eu estava seguindo antes de parar e me apoiei numa das estacas da varanda da frente da casa.
- Somos dois então... – ele respondeu, ficando do meu lado apoiado do outro lado da mesma estaca onde eu me apoiava.
- Qual o seu motivo? – me virei de costas pra cerca de madeira da varanda, o olhando.
- Uma chearleader... – ele suspirou olhando o além.
- Sério?! Que coincidência! – sorri desanimada.
Na verdade eu não sabia se a Ashley era mesmo uma chearleader, mas se ela não fosse, deveria ser – isso qualquer cego podia ver.
- Sério?! – ele se virou pra mim incrédulo – Você... gosta... de...?
- MULHER?! – o olhei espantada, ele tão espantado quanto eu – NÃO, TAYLOR!!!
- UFA! Que susto você me deu agora! – ele gargalhou alto, espantosamente aliviado.
- ARGH, TAYLOR! Não acredito que você COGITOU pensar isso de mim! – cai na gargalhada também – Eu sou namorada do seu irmão, pelo amor de Deus!... Ou pelo menos era... nem sei mais...
- Ah, sei lá, vai que... né? – ele ficou super sem graça, corando bastante – Mas heim: como assim “era” namorada do meu irmão? Vocês estavam namorando até poucas horas atrás que EU SEI! – ele mudou de assunto rápido e deu um sorriso sacana, muito semelhante ao do Zac quando falou que “sabia”.
- Ah, sei lá, a gente brigou ainda agora... – tive que me esforçar pra não começar a chorar de novo.
- Brigaram, foi?...
Concordei em silêncio mordendo os lábios enquanto segurava o choro iminente com a maior determinação possível.
- Por causa de uma chearleader?...
Concordei novamente, desistindo de lutar contra o impossível: conter o choro.
- Ei, não chora, vai?! – ele hesitou por um momento, depois como se dissesse um “foda-se” imaginário, limpou minhas lágrimas com as costas de uma das mãos.  
 Quando dei por mim já estava com uma tsunami saindo dos olhos e entre os suspiros e puxadas de ar falava coisas do tipo “Por que ele não me contou?” e “Mentiu pra mim!” e “Ele não podia ter feito isso!...” e “Eu confiei tanto nele!...”
- Calma, Mel, não chora... Vem cá, vamos conversar direito. – Taylor me puxou pra escadinha da entrada do chalé, limpou a neve com os pés e se sentou, indicando um lugar ao seu lado para que eu sentasse também. – Anda, respira... se acalma... e me conta exatamente o que aconteceu.
Ele fez com as mãos aquele gesto que fazemos quando queremos dizer que estamos fazendo exercícios respiratórios ou algo assim, aspirando e expirando o ar com calma e prolongadamente, e eu o acompanhando quase sem perceber.  Me senti um tanto mais calma ao fazer isso e comecei a falar, agora na velocidade normal e com clareza e ele me ouvindo muito atenciosamente, sem falar nada, apenas fazendo movimentos de compreensão com a cabeça.

~*~*~

- Então... Agora que minha sessão do descarrego acabou, pode começar a sua quando estiver pronto. Sou toda ouvidos! – falei, assim que terminei de desabafar meu drama.
- Ah... você não vai querer ouvir... – ele falou timidamente, se levantando.
- Como não? Super quero! Anda, conta tudo: quem é a chearleader, o que ela fez... TUDO! – dei um sorriso largo, dando um tapinha no chão bem no lugar vazio que ele tinha acabado de desocupar, imitando o jeito como ele me chamara pra sentar ao lado dele.
- Acho melhor não... – ele continuou em pé.
- Ah, vai! Te contei meu drama TODO em troca de nada? – perguntei indignada, me colocando de pé também.
Ele só riu de mim e começou a andar pelo quintal coberto de neve, indo em direção a lateral do chalé.
- Ei, você! Vai me deixar falando sozinha?
Ele virou de lado sorrindo, mas não parou de andar.
- Ei! Ninguém me deixa falando sozinha, ta ouvindo? – comecei a caminhar a passos largos até ele – Tá me ouvindo?!
Ele parou e se virou:
- Cuidado aí, brasileira, o chão tá...
Antes que ele terminasse a frase ouvi um som de algo escorregando em superfície molhada seguido do barulho abafado de algo pesado caindo sobre uma superfície fofa: era eu mesma desabando na grama coberta de neve do quintal.
- “Escorregadio” era a palavra que eu ia dizer, mas não deu tempo... – ele falou, meio tentando segurar o riso, se prontificando a me ajudar de imediato.
- Jura? Nem tinha notado... – ironizei, sem mover um fio de cabelo pra me levantar, até mesmo porque a neve estava fofa e confortável e o céu acima da gente estava perfeitamente estrelado.
- Vem cá, deixa eu te ajudar... – ele se aproximou e estendeu as mãos pra me puxar. Sem perceber colocou força demais nos braços, quase me fazendo voar.
- Opa! Peguei! – ele falou me agarrando pela cintura num abraço forte, fazendo nossos corpos se encaixarem perfeitamente como se o abraça fosse intencional.
Nossos rostos também estavam bem próximos, por muito pouco a gente não se beijou por acidente e ambos percebemos isso de imediato. Taylor corou bastante, o que me fez lembrar que eu também devia estar com o rosto em chamas.
Queríamos quase desesperadamente quebrar o climão que ficou no ar, porém ninguém sabia exatamente o que fazer ou falar nesse instante que na verdade durou pouco mais que uma fração de segundo, mas pareceu se estender por toda uma eternidade.
Taylor tentou tomar a iniciativa com um arranhar de garganta e um “Eah...” mas as outras palavras do seu vocabulário pareciam ter evaporado, então tentei eu mesma quebrar o constrangimento do momento:
- Acho melhor a gente...  – eu também não achei as palavras que queria, só consegui soltar meus braços do pescoço dele, colocando minhas mãos nos ombros dele e esticando um pouco os braços pra nos afastar um pouco.
- Claro! - ele concordou prontamente, se mexendo pra me soltar e se afastar, entretanto isso não aconteceu.
O encarei com uma interrogação enorme na testa e ele me respondeu com a mesma expressão, me deixando mais perdida do que já estava. “O que ele está fazendo, afinal?”
- Taylor?
- Sim? – ele sorriu.
- Você não vai me soltar? – retribui o sorriso, dando tapinhas nos braços dele.
Ele arregalou os olhos azuis e pequenos, e olhou de mim pros braços que ainda estavam em volta da minha cintura soltando um “Nossa!” que eu acho que não era pra eu ouvir, depois olhou pra mim de novo e me soltou de repente dando um passo pra trás.
- Desculpa!... – ele sorriu sem graça, ficando mais vermelho que pimenta.
- Sem problemas! – sorri segurando uma gargalhada pra não deixá-lo mais sem graça ainda.
Foi nessa hora que percebi a maior diferença entre Zac e o irmão: enquanto Taylor parecia prestes a enfiar a cara num buraco no chão, Zac certamente teria feito alguma brincadeira que reverteria a situação e ME deixaria sem graça, ao invés dele ficar sem graça.

~*~*~

Conversar com Taylor foi algo inédito, pois não era do meu feitio falar tanto sobre a minha vida com uma pessoa que eu nem conhecia direito, mas também não me arrependi porque ele foi um bom ouvinte e conselheiro - embora ainda não tivesse comprovado a eficiência das dicas dele.
Depois de muito ele enrolar e desconversar, achei melhor não pagar de chata e parei de pedir que ele me contasse suas lamúrias amorosas, mas deixei bem claro que não iria esquecer de cobraria numa outra ocasião, ao que ele respondeu ”Ok... pode cobrar a dívida depois.” pouco antes de nos separarmos e cada um seguir seu rumo: ele pro teclado e pros vocais da banda e eu pro quarto onde fui retocar minha maquiagem para tirar qualquer evidência de choro que ainda estivesse em meu rosto.
Minha repaginada foi coisa tão rápida que em pouquíssimos minutos eu já estava linda e confiante no meio do quintal onde a quantidade de gente parecia ter dobrado  desde a ultima vez que olhei ao redor – “Será possível?”.
Havia tantos desconhecidos lá que por um segundo pensei que havia, de alguma forma, caído numa festa totalmente diferente. O pânico já estava batendo na porta quando finalmente avistei Akemi quase tendo um ataque de nervosos falando com as pessoas como se estivesse com uma raiva generalizada de todos os presentes.
- Kemi? Tá tudo bem? – me aproximei cautelosamente.
- Ai, pelo amor de Deus! Será possível que ninguém viu a Mel, por aí? Como isso é possível, gente?! – ela falava com cada uma das pessoas pelas quais passava, me ignorando.
Dei outro cutucão no ombro dela, a chamando, mas ela continuou ignorando e abordando as pessoas com impaciência, bufando quando não lhe davam a resposta que ela queria ouvir. Foi só quando dei a terceira seqüência de cutucadas que ela virou bruscamente pra mim, me assustando:
- O QUÊ QUE FOI, HEIM? – ela estava furiosa - NÃO TÁ VENDO... – ela parou, finalmente me vendo – MEL!!! Mel, pelo amoooor de Deus, aonde você estava que tem HOOORAAAS que estou te procurando?
Ia começar a falar, mas ela fez um gesto vago com a mão como se dissesse “não interessa” e continuou falando e andando loucamente enquanto segurava minha mão e quase me arrastava quintal afora até chegarmos à cozinha.
- Anda, me ajuda aqui com o bolo! – ela abriu a geladeira e retirou uma caixa relativamente grande – Você já viu que horas são? Já passou da hora de cantar “Parabéns” e o povo vai começar a ir embora. Fora que os vizinhos estão surtando já com esse barulho todo!
- Ué... achei que não teriam vizinhos aqui nessa época do ano... – falei, a ajudando a colocar o bolo na mesa.
- É, também achei. Mas se você for parar pra pensar, faz sentido: muitos senhores e senhoras idosos tem chalé aqui; a maioria dos chalés são de aposentados, que por sua vez são idosos; idosos aposentados não precisam esperar as férias de inverno pra virem passar o inverno no chalé de inverno, pelo simples fato de serem aposentados e não trabalharem mais, certo?
É incrível a capacidade da Akemi de transformar qualquer coisinha super simples numa informação complexa e cheia de voltas. Isso sem contar a quantidade de “termos técnicos” que ela conseguia colocar na maioria das coisas que dizia. Ela era, de longe, a mais inteligente e estudiosa da gente e a que tinha as melhores notas e o melhor currículo da escola, mas também era a mais zuada por causa disso tudo: a chamávamos de “Enciclopédia Humana”, “Menina Enciclopédia”, “Boca de Dicionário” e coisas que remetessem a essas idéias. Ainda bem que ela era tranqüila com isso e até entrava na brincadeira... Às vezes.
Concordei com a explicação dela sobre a presença dos vizinhos idosos enquanto seguia suas ordens de “pega isso, pega aquilo” num frenesi fora do normal – ela era bastante agitada e estressava fácil com tudo e todos, mas naquele dia ela estava DEMAIS!
Quase que como mágica, quando aparecemos na varandinha com o bolo em mãos, cheio de velas com as cores do arco-íris – brincadeirinha que os meninos faziam entre si – a barulheira da festa se resumiu ao nome do Zac sendo chamado por todos.
De repente ele me aparece “voando” sobre a cabeça da galera: havia sido erguido como um roqueiro e estava passando de mão em mão por sobre a cabeça do pessoal até que finalmente chegou onde o aguardávamos pra começar a cantar o “Parabéns”.
Taylor, que nessa hora o havia substituído na bateria, bateu as baquetas uma na outra contando até três e a banda puxou o “Parabéns” mais rock n’ roll que eu já ouvira na vida. A galera dançava e cantava, alguns se batendo uns contra os outros, como se estivessem num show de rock MESMO. Foi muito divertido e diferente.
Quando o “Parabéns” acabou algumas vozes pediram discurso, mas outras começaram a gritar coisas parecidas com “NÃO!! Pelo amor de Deus! Quando ele começa a discursar, não para NUNCA!”, fazendo todo mundo cair na gargalhada e concordar. Algumas dessas vozes sem dúvida eram de Phill, Elliot e Elloy, que sempre o chamavam de político porque ele realmente gostava de discursar e sempre era o porta-voz dos grupos que fazia parte na hora de apresentar trabalhos na escola.
Ele resumiu o discurso – atendendo a pedidos –  em poucas frases de agradecimento e logo cortou o bolo. Na hora de entregar o primeiro pedaço, ele me olhou meio vacilante... Mil e uma coisas passaram na minha cabeça quando vi aquele olhar “Talvez ele esteja com medo de eu recusar e fazê-lo passar carão... Ou talvez ele esteja achando que eu vou achar que ele está sendo falso por me entregar o primeiro pedaço pouco depois da gente ter tido uma briga nada bonita...” Juro que até achar que ele não me entregaria nem esse nem nenhum outro pedaço do bolo ou sequer me deixaria permanecer na festa, eu achei tamanha foi a paranóia que me bateu quando ele deu essa vacilada, mas eu estava enganada:  ele abriu um sorriso vacilante ao qual respondi com um sorriso tão vacilante quanto o dele, deu a volta na mesa vindo até mim, não só pra me entregar o pratinho com bolo, mas também para me dar um selinho e enquanto eu  o abraçava para agradecer e desejar felicitações, ele cochichou bem baixinho em meu ouvido: “Eu te amo, Mel. Me perdoa?”
Nenhuma palavra precisou ser dita para que ele soubesse que estava perdoado e eu que nós estávamos bem.

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